domingo, 13 de janeiro de 2013
Que Idioma Era Falado Por Jesus?
Tem sido aceito por muitos teólogos que o aramaico era a língua primária de Jesus e a linguagem predominante da população judia da Palestina. Esta crença repousa no fato de que o Grego, a língua franca da época, nunca substituiu totalmente o aramaico na Palestina. Por exemplo, H. Mudie Draper afirma o seguinte em reposta a afirmação de que o grego poderia ter sido a língua primária de Jesus:
‘Até o século sétimo D.C., o aramaico era a língua de comunicação para o comercio e a diplomacia entre as nações da Mesopotâmia, Ásia Menor e Palestina. A frase ‘os gentios de fala grega’, não significa que este povo falasse apenas grego, mas que no meio da população onde a língua diária era o aramaico, os gentios eram bilíngües... [Aramaico] foi difundido e popular a pelo menos do quarto século A.C. até o nono século D.C. (H. Mudie Draper, “Did Jesus Speak Greek?,” The Expository Times 67 (1995-1996): 317.).
Outros estudiosos, contudo, argumentam que o hebraico poderia muito bem ter sido a língua de Jesus. J. A. Emerton afirma o seguinte:
‘Jesus foi criado na Galiléia, e é comumente aceito que ele normalmente falava aramaico e que o usava quando ensinava as multidões na Galiléia ou falava com seus discípulos que eram galileus. O aramaico serviria também a seu propósito quando visitava Jerusalém, pois era entendido por pessoas cuja língua vernácula fosse o hebraico... Contudo, se o hebraico era normalmente falado por muitos na judéia, então Jesus talvez tenha feito uso dele com mais freqüência do que supõem muitos dos estudiosos do Novo Testamento. É igualmente possível que o hebraico fosse a língua primária de Jesus, não obstante sua educação Galiléia e a probabilidade de que ensinava em aramaico na Galiléia.' (J. A. Emerton, “Problem of Vernacular Hebrew in the First Century A.D. and the Language of Jesus,” Journal of Theological Studies 24 (1973): 17.).
Conquanto seja verdade que provavelmente pelo primeiro século da era cristã o aramaico fosse a língua primária de muitas regiões judias, é duvidoso que ela tenha sido a língua primária para todo o judeu na Palestina, particularmente aqueles da província da Galiléia (cf. Daniel B. Wallace, Greek Grammar beyond the Basics: An Exegetical Syntax of the New Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1996), 24.).
Há muitas boas evidências para se dar apoio ao fato de que o grego era a língua predominante da área. Stanley Portes diz:
'Outros estudiosos tem argumentado fortemente pela predominância do grego no primeiro século na Palestina e, assim, no ministério de Jesus. Seus argumentos, alem de outros fatos se fundamentam em o grego ser a língua franca do Império Romano, a natureza trilíngue do material do deserto judaico, incluindo as cartas gregas de Bar Kokhba, inscrições, ostraca e evidências ossuárias, evidência literária (Ex. os escritos de Josefo), e o mais importante, o fato lingüístico de que o NT ter sido transmitido em grego desde seus mais primitivos documentos. Abbott, Argyle, Smith, Sevenster, N. Turner, Lieberman, Mussies, Treu e Hengel, dentre outros, argumentam de várias formas que o grego estava em uso difundido na multilíngüe sociedade do 1° século na Palestina. Parece não haver nada que impedisse um morador da Palestina de aprender o grego, certamente como uma segunda língua ou mesmo como uma primeira língua. (Stanley Porter, Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood (Bern and New York: Peter Lang, 1989), 113.).
O gramático Nigel Turner também concorda que seja posível que Jesus falasse grego; ele sustenta que o grego foi provavelmente a língua que Jesus se comunicou com a mulher Siro fenícia, com o centurião romano e Poncio Pilatos. (Nigel Turner, Grammatical Insights into the New Testament (Edinburgh: Clark Publishers, 1965), 176.).
Robert Gundry argumenta que todas as três línguas estavam em uso na Palestina do primeiro século. Em seu artigo “The Language Milieu of First-Century Palestine”, ele diz o seguinte:
“Já existem provas de que todas as três línguas em questão – Hebraico, Aramaico e Grego – eram comumente usadas pelos judeus na Palestina do primeiro século. Não estamos mais lidando com questões incertas ou duvidosas... Escavações realizadas pelos franciscanos no monte das oliveiras desenterraram ossuários datados da época da guerra judaica (66-73 D.C.). Em sete destes ossuários a língua é a hebraica, em onze é aramaica, e em doze deles é grega... É mesmo impressionante fazer tal descoberta no Sul da Palestina. Os estudiosos sempre reconheceram que os judeus da Galiléia, estando mais distante do centro do judaísmo e mais próximos de áreas gentias como a Decápolis e localizada na rota da Via Maris, eram mais helenizados do que os judeus da Judéia. Contudo, as descobertas arqueológicas mostram que mesmo no Sul, o grego era comumente usado. Com isso se torna mais provável ainda que o galileu Jesus e os apóstolos, que eram predominantemente, senão exclusivamente galileus, tenham comumente usado o grego em adição às línguas semíticas. Assim sendo, muito da tradição evangélica podem ter sido originalmente transmitidas tanto em moldes gregos quanto em aramaico e hebraico... Não podemos simplesmente trabalhar com o pressuposto de que tudo estivesse originalmente em aramaico, que deveríamos procurar equivalentes em aramaico quando possível, e que onde os equivalentes em aramaico não poder ser traçado, devemos rejeitar a autenticidade.” (Robert Gundry, “The Language Milieu in First-Century Palestine,” JBL 83 (1964): 405-408).
Portanto, é impressionante que o grego fosse usado muito mais do que tradicionalmente se pensava.
Philip Edgcumbe Hughes assim diz:
“As evidências sociológicas, lingüísticas e arqueológicas indicam que a Palestina era largamente multilíngüe, com o aramaico e o grego em uso bastante difundido, o hebraico como uma íngua escrita (e possivelmente como língua vernácula), e o latim como língua em casos políticos e administrativos." (Porter, Verbal Aspect, 113.).
Contudo, Moulton argumenta que apesar do uso de semitismo em Mateus, é improvável que os verssos 17-19 (ou qualquer outro verso desta questão) fossem tradução do aramaico. Ele sustenta que o estilo de Mateus é muito polido e muito entremeado de orações subordinadas e genitivos absolutos para se tratar de uma tradução. (James Moulton, A Greek Grammar of the New Testament , vol. 4, Style, ed. Nigel Turner (Edinburgh: T & T Clark, 1906), 37.).
Todavia, mesmo que Jesus fosse trilíngue, isto necessariamnete significa que ele falou grego em Mateus 16.17-19? De acordo com Poter, há evidências suficiente para sugerir que Jesus falou mesmo em grego nesta ocasião. Primeiro, Potter argumenta que enquanto o plural de ‘ouiranov’ é comum em uso semítico, deve ser lembrado também que a forma plural da palavra é usado por um número considerável de autores gregos extra-bíblico, incluindo Aristóteles, e que o próprio Mateus usa tanto a forma singular quanto plural da palavra (cf. 5.34-35; 6.10.19-20;18.18). (Stanley Porter, “Did Jesus Ever Teach in Greek?,” 234).
Segundo, Potter diz que o uso de ‘adhes’ pode também sugerir que Jesus falava grego aqui. Embora haja muitos paralelos a esta frase no Velho Testamento (Jo 17.16 e Is 38.10), há muitos mais paralelos na literatura grega secular, já que a imagem do Hades é tradicionalmente clássica (cf. Homer, Il. 9.312; Od. 11.277; Euripides, Hec. 1).
Terceiro, se a confissão de Pedro ocorre em Cesaréia de Filipe, então é totalmente possível que Jesus estivesse falando grego aqui. Cesaréia de Filipe era uma grande cidade gentia antes de Herodes o Grande reconstruí-la ou Herodes Filipe renomeá-la. Assim, esta cidade teria sido o lugar mais apropriado para o uso do grego do que qualquer outro lugar na Palestina.
Ainda que tais argumentos não provem que Jesus tenha falado o ‘logion’ em grego, pelo menos eles levantam a possibilidade de que o grego, e não o aramaico pode ter sido falado aqui e em outros lugares durante o ministério de Jesus.
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